quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida...

“Toda mulher que já teve um bebê sentiu dor, e as mães de menininhas têm o coração cheio de tristeza.”
mensagem de uma mae
Logo que terminei a leitura de Xu Xiaobin, A Serpente Emplumada, quis dar continuidade a minha empreitada de conhecer mais a fundo a literatura chinesa. Pesquisei sobre vários livros e decidi ler Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, de Xinran.
A história me tocou bastante, provavelmente por trazer relatos reais acerca de mulheres chinesas que devido aos percalços da vida precisaram abandonar suas filhas à própria sorte. Os depoimentos são tão reveladores que não tem como lê-los sem sentir um nó na garganta, sem imaginar como reagiríamos caso fosse conosco. Não tem como não nos colocarmos no lugar dessas mães e sofrermos com elas. Confesso que por vezes chorei… É triste, muito triste!
Xinran começa nos explicando o porquê de haver na China tantas meninas orfãs. Ela diz que isso acontece, em primeiro lugar, porque é um costume arraigado na cultura do povo, pois desde os tempos antigos bebês do sexo feminino são considerados inferiores e abandonados em comunidades rurais do oriente; em segundo lugar, porque há uma combinação de ignorância e liberdade sexual; e por último, por causa da existência da política do filho único.”
Nas zonas rurais, onde os habitantes tiravam o sustento de métodos mais primitivos como a agricultura e a pesca, a preferência por crianças do sexo masculino era mais comum; por causa de sua força física e capacidade para trabalhos pesados elas eram mais desejadas. Além disso, a tradição que diz que apenas o filho homem tem o direito de herdar o nome do clã, que apenas ele pode dar continuidade a linhagem familiar e acender o incenso no altar dos ancestrais, fez com que algumas pessoas, sobretudo aquelas com pouca ou nenhuma instrução, começassem a abandonar ou asfixiar a criança logo após o nascimento, caso fosse menina.
Eu já tinha escutado falar sobre a desvalorização da criança do sexo feminino na China, mas a verdade é que nunca havia entrado em contato com histórias que me revelassem de fato como tudo acontece. Todas as vezes que tomei conhecimento de algum caso de abandono de menininhas, achava que os pais faziam isso por falta de compaixão, por falta de amor, propriamente dito.
Hoje, após ler o livro de Xinran e conhecer as circunstâncias que levaram muitas mães ao ato de abandonar suas meninas, compreendi que elas agiram assim mais por falta de opção que por falta de amor.
Muitas mães, por conta do abandono de suas filhas, acabaram tristes, deprimidas, algumas enlouqueceram, outras se suicidaram. Após ler esses relatos, o sentimento que restou é o de completa tristeza.
A autora de Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida recebeu inúmeras cartas de meninas que foram adotadas por famílias estrangeiras. Essas meninas têm suas vidas repletas de dúvidas, por isso muitas mães adotivas aproximaram-se da literatura de Xinran em busca de respostas para os questionamentos das filhas. Entre todas as perguntas que foram feitas, a mais recorrente foi: Por que minha mamãe chinesa não me quis? No livro, Xinran tenta responder a essa pergunta e mostrar a essas meninas chinesas, que perderam as mães biológicas, o quanto suas mães sofreram e o quanto elas as amavam.
No final, a autora ainda pergunta: com todas as dramáticas mudanças pelas quais a China passou, será que as mulheres que pela tradição foram forçadas a abandonar suas menininhas terão algum dia a chance de abraçá-las novamente?
Adoraria acreditar que sim.
“Uma mulher era como um seixo desgastado e arredondado pela água e pelo tempo. Nossa aparência externa é alterada pelo destino que nos cabe na vida, mas água alguma poderia alterar o coração da mulher chinesa e seus instintos maternos.”
Sobre a autora:

xinran
Xinran é uma jornalista e escritora chinesa. Nasceu em Beijing em 1958. Em 2004 fundou uma ONG, The Mother’s Bridge of Love, que busca auxiliar orfãos chineses e estreitar a compreensão entre Ocidente e China.

2 comentários:

  1. Já li um livro dela, se não me engano se chama "As boas mulheres da China", será isso? O livro é denso, é uma vida de muito sofrimento na China, ainda, embora se ache que a vida aí seja maravilhosa para todos, né?
    Este também despertou-me a atenção, já anotei.
    Beijo!

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  2. Lúcia, tenho 'As boas mulheres da China' há um tempão, mas ainda não consegui ler. Pela sinopse deu pra perceber que trata de um tema bem pesado e triste.
    Não, a vida na China não é maravilhosa pra todos, infelizmente!
    Abraço :)

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